Futuro do vídeo digital: RAW

A tecnologia para produção de vídeo digital vem caminhando a passos largos nos últimos anos. Dezenas de formatos de gravação, modelos de câmeras, aumento de resolução, entre muitos outros detalhes. Porém, dois detalhe são mais importantes, na minha humilde opinião: aumento da velocidade de transmissão, e maior capacidade de armazenamento de dados, e ambas com preços em queda. E isso vale para as câmeras, tanto quanto para os sistemas de edição.

Hoje, quem não tem rios de dinheiro para investir em equipamentos que custam dezenas de milhares de dólares, acaba ficando preso a formatos de gravação de vídeo com grande compressão e, consequentemente, boas quantias de dados desperdiçados em detrimento de uma suposta eficiência. Basicamente estamos sendo forçados a captar e editar em formatos que seriam originalmente voltados apenas à finalização e distribuição de material. Por esse motivo, somos forçados a fabricar um visual direto na câmera, que nos dá pouca margem de trabalho artístico na pós-produção, e força a tomar decisões rápidas na hora de gravar, que podem ser equivocadas sob pressão. Fazendo uma analogia com o mundo da fotografia profissional digital, somos obrigados a usar o arquivo JPEG para editar no Photoshop e montar o álbum para o cliente.

Ainda fazendo o paralelo com a fotografia still, quem é fotógrafo profissional sabe o poder que o arquivo RAW tem. Basicamente você tem um negativo digital das fotos, onde é possível aplicar e testar parâmetros sem danificar o material bruto, ficando com muito mais liberdade, e podendo aproveitar muito melhor a qualidade que a câmera pode oferecer.

Os dados contidos num arquivo RAW são tirados direto do sensor de imagem, sem processamento. O sensor, por sua vez, é feito de materiais que captam a luz e a “enxergam” de um modo diferente do que o olho humano. A maioria das câmeras de vídeo processam esses dados de forma que eles fiquem próximos ao que seria normal para nossos olhos verem, e gravam num formato de arquivo pré-definido. Porém, se alguma coisa não está configurada de forma certa nessa câmera, o que foi gravado fica moldado de forma errada, com pouca margem para ser reformado. Com o RAW, a história é diferente, pois até o balanço de branco é feito posteriormente, na edição. Com uma câmera que grava em RAW, você fica livre para pensar somente no enquadramento e exposição da cena no set, deixando o trabalho artístico para a pós-produção, onde as decisões podem ser tomadas com mais calma.

Para trabalhar com RAW em vídeo, a opção atualmente mais em conta do mercado é a câmera RED ONE, que, num pacote completo e funcional, não custa menos de 50 mil dólares. A própria RED já vem anunciando há algum tempo sua opção mais barata e que já foi mencionada neste blog, a Scarlet, que trará toda a força do RAW para um patamar de preço à partir de 5 mil dólares. Não duvido nada que Canon, Sony e Panasonic já estejam desenvolvendo algo parecido (com gravação em RAW) para o mercado de baixo custo. A tecnologia de cartões SDXC está aí, aumentando capacidade e velocidade, além do bom e velho CompactFlash, usado na RED ONE e em boa parte das câmeras fotográficas profissionais.

E estas tecnologias de armazenamento me levam de volta ao primeiro parágrafo deste texto, puxando a conclusão: o RAW só não é difundido como formato de captação de vídeo porque gera arquivos muito grandes, que demandam muito espaço e alta velocidade de processamento de dados para armazenamento. Com o barateamento das tecnologias mais atuais, o RAW começa a ficar mais perto das produções pequenas, e possivelmente já esteja logo ali, virando a esquina.

São tempos interessantes para estar ativo nesta indústria de produção audiovisual.

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14 Comentários em “Futuro do vídeo digital: RAW”

  1. Marcio Diz:

    Pena que o “mercado audiovisual” não é tão grande assim e é visto pelos clientes como uma grande e fácil brincadeira fugaz que qualquer um faz. Preços lá embaixo e concorrência lá em cima: não há nada tão interessante assim para se comemorar, ainda mais com milhares de inúteis desempregados saindo de faculdades com uma câmera na mão e um computador em casa, azedando o profissional de qualidade. E ‘status’ não enche barriga… Vai comemorar o curto ou o longo prazo?

    • gabsoares Diz:

      Olha Marcio, concordo que o mercado tem suas mazelas, mas vejo que há espaço pra crescimento em qualidade e quantidade. Eu acho que, na verdade, falta mais atitude de nós, profissionais, para botar na cabeça dos clientes que produção de vídeo não é gasto, e sim investimento. Independentemente se o caboclo vai usar ou não um workflow baseado em RAW, tem que primar pela qualidade e saber vender isso para o cliente.

      Trabalhar com alto nível de qualidade não é pra qualquer um, e é essa qualidade que temos que vender. Se o cliente se convence de comprar a qualidade, automaticamente eliminamos a concorrência ruim. É uma batalha pesada, mas eu me disponho a lutar por isso, porque antes de ser profissional, sou um apaixonado pela produção audiovisual.

  2. Laborema Diz:

    Bom aproveitando o tema RAW, gostaria de ler a sua opinião sobre duas coisas distintas:
    1) Até que ponto (em fotografia) é arriscado para um fotógrafo sair tirando fotos de casamentos por exemplo e chegar em casa e levar um grande susto e não ter como salvar a mesma?
    2) Além da concorrência de qualidade já mencionada tem também a “pirataria” particular, ou seja, você produz o vídeo de uma formatura e as vende no máximo de 50% dos formandos, o resto vai fazer uma cópia só pra não ficar sem. Até que ponto é vantagem altos investimentos nesse serviço de eventos sociais?
    Obrigado.

    • gabsoares Diz:

      1 – Como assim não ter como salvar?

      2 – Não posso falar muito sobre eventos sociais, que é uma área onde eu não atuo. Mas eu acho que é uma área onde é arriscado fazer investimentos muito altos. Principalmente falando de workflow RAW, que é muito mais voltado para produção de cinema e publicidade.

      • Laborema Diz:

        1 – Como assim não ter como salvar?

        O que quis escrever é que conheço um fotógrafo que não se arrisca a tirar fotos em RAW porque tem medo de quando for mexer nas mesmas pode ter uma ou outra que na hora ele não viu que ficou estourada (clara).


  3. O Márcio deve estar tendo sérios problemas profissionais, pelo depoimento.
    O mercado audiovisual tem crescido muito, e muitas empresas estão investindo rios de dinheiro em vídeos, que com a popularização da internet a demanda tem crescido vertiginosamente.
    Vejo vários motivos para comemorar, quando eu comecei era muito mais difícil fazer vídeos, agora eu consigo editar em casa, tenho uma câmera, etc.
    O que diferencia o profissional no mercado é a qualidade e eficiência do serviço prestado.

    • Marcio Diz:

      Otávio, queria poder acreditar em Papai Noel assim como você.
      Tenho faculdade de Administração de Empresas na FGV e sei bem o que estou falando. Não é porque você trabalha com audiovisual que é capaz de analisar o crescimento do mercado vs. competição. Isto é bem mais complexo. Além disso, cerca de 70% dos clientes acham que vídeo é tudo a mesma coisa.
      No entanto, boa sorte com seu otimismo. Os fotógrafos também estão muito otimistas com as câmeras digitais que qualquer um tem. Não é verdade?

      • gabsoares Diz:

        Mantenho minha opinião…

        Se cerca de 70% dos clientes acham que vídeo é tudo a mesma coisa, acredito que a falha seja nossa em não conseguir mostrar que não é bem assim.

        De qualquer forma, a concorrência desleal está sempre batendo à nossa porta, e inclusive levando clientes, porém isso ainda não se tornou problema muito sério pra mim, porque aqui a maioria dos clientes são parceiros, e indicam nosso trabalho sempre ressaltando a qualidade.

      • Marcio Diz:

        Sim, a falha é do pessoal de audiovisual que não sabe mostrar isso para o cliente. São na maioria pessoas muito ignorantes.
        Na verdade, esta área está virando uma grande brincadeira. Mas isso tudo é constatação de uma situação que está piorando.
        E só para lembrar… performance passada ou performance presente não indicam performance futura. Se os preços estão caindo, todos saímos perdendo. Se são otimistas só porquê estão conseguindo pagar suas contas, saibam que o movimento para baixo é lento, mas é para baixo. Os preços é que ditam isto: são baseados na lei da oferta e da demanda. Os otimistas o são pois não enxergam este “pequeno” detalhe.

  4. Laborema Diz:

    Não sei se posso me intrometer nessa conversa mas gostaria de dizer que a minha preocupação é justamente essa. Um profissional do nível de vocês cobram um valor N e daí começa a ter problemas com a desvalorização do produto que vende e começa a cair: de N vai para M, L, etc…por isso que acho que quem faz muito nas suas produções não podem vender a preço de banana. Não pode abrir mão do preço justo.


  5. Acho que vídeo RAW é a única forma de registrar arte digitalmente. O que fazemos com DSLRs são estudos, as vezes de tão bons temos a impressão que pode ser eterno, não é. Vejo graos do PB de 50, 70 anos atras e acho simpatico, parte do charme da produçao, mas não consigo ver daqui a 70 alguem achando o ruido de compressao um charme, alem dos problemas de pós produçao. Agora sobre definir muito bem a camera, e tentar alcançar o resultado ideal ja na maquina não acho ruim, como disse, no nosso estudo em DSLRs uma das coisas é a de ajustar a filmagem o mais adequado possivel (com excessoes como ponto branco, q é muito mais preciso na pós). Esse negocio de sair atirando nao é uma boa, acho que qualquer coisa que nos “poupe trabalho” na verdade é uma forma de poupar de pensar, e parar de pensar sempre é um exercicio para baixo, tornando as produçoes medianas, e como dizem, o que é mediano é mediocre.

    Sobre o mercado, não sou profissional audiovisual, mas de comunicação, e tenho os mesmos problemas, os clientes não reconhecem….. bem, acredito ter alcançado ponto maduro quanto à isso. Ainda somos colonia portuguesa, se não perceberam, não temos educação e em nada somos encorajados a sermos líderes, e uma vez seguidores, qualquer merda serve. Tem um trabalho legal? Legal mesmo, muito bom, é um artista? Entao esquece a grana e vai viver de arte, aceita uma ou outra forma de usurpar seu talento por algum troco e segue em frente, as tecnologias estao ai, baratas. Não quer esquecer a grana, entao sai do Brasil, serio não é tao dificil, aprende um idioma, ingles, frances, sueco… e vai embora, onde as multinacionais e até as empresas locais estarao numa outra realidade de competitividade e vão recompensar seu talento com muito dinheiro. Depois voce volta e atende esses caras aqui.

    Mas se quiser construir algo mesmo, fique e mude aqui o que acha não estar bom. Pense que aqui é um velho-oeste. Faça um cliente tão contente e indssociavel do seu trabalho e voce tera uma prova perfeita para qualquer outro cliente sobre o valor do seu trabalho. Mas não adianta fazer um sucesso comercial, deve ser algo que realmemte construa algo, um avanço para a sociedade que voce esta inserido. Ingmar Bergman pegou um cinema capenga na Suécia e deixou um legado, como Pele, Garrincha…..

    Então, Marcio, engole o choro e para de menosprezar os jovens, até hoje poucos experiente profissional deixaram algum legado cultural. E voce… Marcio….. não me lembro, me mostre um trabalho super-foda seu?

  6. Mario Alexandre Diz:

    Fico aqui pensando qual o investimento em hardware para processar o gigante gerado em RAW.

    • gabsoares Diz:

      Como disse no final do texto, o investimento ainda é caro, mas está barateando com o tempo. Hoje ainda fica restrito a grandes produções, mas não demora muito para estar disponível para o mercado de baixo custo.


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